A inocência é a universalidade dos seres vivos, é nela que está a beleza da ignorância de quem vive acreditando.

A minha inocência foi esta:


Francisco Sarmento

Este blogue encontra-se concluído para que outro aconteça agora: http://poemasdesentir.wordpress.com/

terça-feira, 18 de setembro de 2012

D.Quixote e Sancho Pança

Estou na minha casa, sentado no sofá, a ver um filme. Na cadeira está o meu melhor amigo a dormir, adormeceu. Estava a olhar para ele e apercebi-me da nossa amizade. Eu e ele conhecemo-nos há doze anos atrás, quando entrámos para a escola no primeiro ciclo. Desde então não nos separámos mais.
Existe uma tendência de misturar fidelidade com cumplicidade na nossa sociedade. Aliás, confunde-se fidelidade na amizade com algo que nem sei se tem nome, algo que esse melhor amigo se torna, uma sombra talvez. No ponto de vista desse preconceito vulgar a nossa amizade torna-se estranha ou mesmo indigna de ser a melhor amizade. Porque discutimos. E não somos iguais como deveria ser, somos totalmente diferentes. Ele é muito mais prático, aventureiro, destemido. Eu sou mais teórico, menos social e mais queixoso. Ele faz, eu reflicto. No entanto, nós os dois somos a bengala um do outro porque a cumplicidade não é criada nem limitada a risos e sintonias nas conversas. A cumplicidade vai mais longe, consegue prever as reacções e acções do outro, os seus sentimentos e claro, pensamentos. Passámos muito tempo sem nos vermos, sem nos falarmos, afastados ao mero acaso de nenhum puxar pela amizade e não morremos, não sentimos a necessidade de  estar com o outro, porque essa é a real amizade, sabermos que o tempo e o espaço não corroem o fio, não é a física das coisas nem é o ouvir, o falar, o tocar que em ausência possa corromper este laço. Não escrevemos as nossas histórias juntos, se é isso que o geral redutor preconceitua, mas sim o que está para além disso.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Necessito de mostrar
alguém que não sou,
algo que outro sonhou,
desconfortado em estar,
desconfiado em amar,
olhos amaldiçoados
que vêem para lá do presente,
para lá do mal,
longe como um olhar distante
sem nunca descobrir um igual
ou menos inferior à dor,
para a igualar é só com amor.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Há uma porta de madeira branca por abrir...
O que há para lá dessa porta?
Sinto ser um mundo novo por descobrir,
a chamar-me, a querer dar-me as boas-vindas,
mas receio que seja batota,
que seja só um mundo feito de cinzas...
será uma porta de madeira
ou estou a ver um espelho
de uma porta que ultrapassei?
Não me lembro...
talvez até tenha passado sem me aperceber...
mas onde está a chave?
Não há chave nos meus bolsos,
talvez a tenha perdido
ou nem sequer a tenha achado...

As portas não se abrem sozinhas,
muito menos se trancam sozinhas...

Que não sejam fugas
ou ficarei dependente
de pensamentos instintivos
e de algo que me persegue...

É mentira... é mentira...

Quando Te Esqueces de Mim

Quando te esqueces de mim
o mar deixa de ter ondas,
a Primavera deixa as flores à espera,
e uma criança chora ao luar sem saber,
quando te esqueces de mim,
é como se um raio me atingisse
em pleno céu aberto à luz do dia,
assim, inesperadamente,
- é a realidade a recair na ilusão.

E com aspas se vão formando palavras
sem significado, apenas para cobrir
o que não se consegue dizer,
como uma ironia disfarçada de sorriso,
é de um sarcasmo amargo na resposta
sobre quando te esqueces de mim:
Já estou habituado, é sempre assim...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

À noite,
quando os meus olhos tomam o seu repouso,
todas as estrelas formam uma única constelação
desenhando o teu retracto, o teu sorriso...
mas por mais que estique a mão
estás sempre longe, muito longe...
como a inalcançável linha do horizonte...

desculpa... só me apetece pedir desculpa...
desculpa ter nascido...
À margem de todos... com tudo.
Não escrevi para ti, não escrevo para galerias,
só escrevo para corações, olhares, almas...
só escrevo para paisagens... (ou... miragens?...)
por isso não te admito ser lido
com intenção de quem quer ver
menos do que as coisas são:
com severidade, com... austeridade...
- porque sou uma criancinha a escrever.

Uma criança que inocente que olha para o lado
quando não quer ver os horrores da vida,
que olha para as pessoas interrogando-se sobre elas,
com olhinhos vivos de quem pinta
sem se mexer, sem... dizer...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Morte Do Poeta


Aglomerei-me com o Universo,
deitei-me com cada estrela dele,
entreguei-me à alma das coisas e das causas,
engoli, como o espelho, o Mundo inteiro,
dentro do meu corpo está cada partícula do nosso Planeta,
e vomitei Poesia, ainda que fosse nojento,
abracei-a como um pai, como um irmão, como um só,
e deixei-a voar, navegar e caminhar nos vossos espíritos
como se eu já não tivesse nada a ver com os meus poemas,
mas o meu último poema não está escrito
porque sofre constantes mudanças,
até mesmo depois da minha morte:
com fé incessante titulei-lhe: Humanidade.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Fomos ar
no momento em que abrimos os braços
e rodámos sobre nós sem parar.

Fomos água
no momento em que mergulhámos
dentro do mar e ouvimos o seu silêncio.

Fomos fogo
no momento em que chegámos
ao auge de um amor abraçado.

Fomos terra
no momento em que nos afogámos
na lama e ficámos pintados.

Fomos... e não voltámos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Um poeta em extinção,
um mundo vazio,
um silêncio calado,
um gesto quieto,
uma voz apaziguada,
um olhar cego,
uma mão sem dedos,
um coração trespassado,
um lar sem nada,
um escuro de medos,
uma poço de segredos,
uma luz que não acendeu,
uma pegada rasgada,
este sou eu,
um homem sem alma,
um conto sem fada...

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Mãe

A saber:
não me fiz perder
em ilusões inalcançáveis,
apenas fantasias
que me serviram de lençóis nas noites frias;
todos os meus sentimentos foram palpáveis,
eu senti-os, alteraram as minhas pulsações.
Sabei também
que a chave da porta de casa é a minha mãe,
pois foi quem me preparou para atravessá-la,
foi quem me ensinou a  ultrapassar os buracos no chão,
as ruas minadas, os céus chuvosos,
os vastos desertos da solidão,
a respirar nas ruas invadidas pelo mar da confusão,
ensinou-me a ser rijo como uma pedra da calçada,
tão constantemente pisada, cada vez mais gasta,
e que como eu, como ela, estamos acompanhados
as lágrimas das gentes devastadas,
que mesmo de olhos fechados,
há um sol que nos ilumina e aquece,
há uma lua que brilha nas nossas estradas
para nos dar o calor da fé quando a noite arrefece,
ensinou-me a adaptar-me aos animais
quando a Natureza nos abraça,
quando a sociedade vê-nos a mais,
que as plantas também têm significado
mesmo que não falem, podemos tê-las ao nosso lado
para que sejamos nós a falar por elas,
sem que tenha de haver correntes ou trelas
que nos condicionem a personalidade e a vontade,
ensinou-me a sorrir mesmo quando as lágrimas nos pesam,
a encontrar harmonia tanto no coração como na paisagem,
e, se não encontrar, inventar um poema em nossa homenagem.

Diários de Poeta

Sou um jovem em busca da Poesia
porque é a única certeza que tenho.
Procuro-a na alma dos objectos, nos olhares,
nas palavras, no tempo, nos acontecimentos...
mas acabo por encontrá-la dentro de mim,
como uma catarse.

A tinta do meu papel não se interessa
pela quantidade de leitores,
desde que eu a ame, não há nada a constar.

Mesmo que me perca, escreverei sobre a perdição.
Mesmo que falhe, escreverei sobre o falhanço.
Mesmo desinspirado, escreverei sobre a desinspiração.
E concedo-me o direito de ser assim.

Sou um deus, deus do meu mundo,
só eu sei quantas estrelas tem o meu Universo,
só eu é que vivi a minha vida
porque sou eu é que estou dentro do meu olhar.

Sou poeta, absorvo o que está à minha volta
como um papel absorve a tinta de uma esferográfica,
como quando damos vida a uma fotografia através de recordações.
Uma fotografia que nos fala e tem algo a dizer.
Nunca interroguei a qualidade do verso
porque antes de escrever sinto a sua essência,
- é a minha definição de perfeição,
é a minha maior honestidade.
Um pessoa honesta consigo própria não se define pelo os adjectivos que lhe dão mas sim pelo seu próprio nome.

Fim de Capítulo

Lentamente, o pano vai caindo,
os projectores vão-se desligando,
e eu, sem me aperceber,
continuo o meu monólogo,
o monólogo da minha pessoa,
da minha vida, da minha gente...
O pano continua a descer,
já tapando a minha cara,
e continuo a falar
sem me ter apercebido.
até que as luzes se desligam,
o pano chega ao chão,
separando-me das pessoas,
o meu monólogo é interrompido,
já não o posso continuar,
as palavras que ficaram por dizer
tornaram-se recordações e reflexões
da vida minha que partilhei com os meus.

O pano cai e acaba-se mais um acto na minha vida.
Agora o palco é outro.

sábado, 11 de agosto de 2012

Passei a ter certeza de que para lá do horizonte o oceano cai como cascata onde os mortos estão em queda no universo, esquecidos e abandonados, onde o mundo se desfaz na espuma dessa gigante cascata, porque as lágrimas dos povos não saram e no Olimpo estão as estátuas amaldiçoadas que os escravos e os sobreviventes foram obrigados a erguer: os mortais. Mortais, matam-nos a alma antes do corpo morrer.

Às Horas do Cigarro

O tempo arde, esfumaça-se,
tornando-se parte de outras pessoas
cujos momentos juntos passámos,
e na última hora da idade, 
só nos restará recordações
que se vão desfazendo
à medida que o cérebro morre,
memórias partilhadas
são caramelos deitados fora:
fazem sempre parte de algo,
nem que seja do chão ou do cinzeiro...

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A Explicação de João

Uma vez cruzei-me com o João,
o João que levava uma faca na mão,
vítima de descriminação,
escorria-lhe sangue do corpo,
andava parecendo um morto
por isso toda a gente se afastava,
mas o que não sabem
é que a alma dele também sangrava,
ele estava inchado, cheio de nódoas negras,
mas o que eles desconheciam
é que a sua garganta também estava inchada,
fechada, trancada, acorrentada ao silêncio da opressão,
porque ele tinha cadastro a dar com um pau,
não havia gesto que fizesse que não fosse acusado,
todos se afastavam da sua raiva como ímanes
mas não sabiam que ele desejava no fundo ser abraçado,
que desde o primeiro dia da sua vida estava condenado
a implantarem-lhe a ideia nos seus tímpanos
que ele era malvado e por mais que fizesse
as lágrimas escondidas e abafadas
iriam cozer-lhe os tecidos do seu corpo,
todos o acusaram, se afastaram,
até ao dia em que tudo foi para o torto:
os seus gritos sem dicção arrancaram-lhe o coração
de sentir-se sem saída, de toda a sua vida parecer fantasia,
porque às vezes essa é a única esperança que nos resta
na sociedade voraz que não nos empresta um pedacinho de paz
para que o tempo continue a ser capaz
de existir sobre a nossa pulsação
sem que percamos totalmente a razão.
Assim João, cansado de um destino traçado,
encontrou a Morte num sonho,
e perguntou-lhe se tinha um lençol
que afastasse este mundo medonho,
mas até ela lhe negou uma nova visão sobre o sol,
e João acordou sem querer, a enlouquecer,
querendo vestir as vestes da Morte,
pegou numa faca e apontou à garganta
lançando pragas à Humanidade,
até se aperceber a origem da sua realidade,
a perplexidade da conclusão foi tanta
que as lágrimas pararam de sangrar,
apercebeu-se que foi posto
num canto onde não havia encosto,
onde não havia para se deitar
onde não havia ar para abraçar
então decidiu que não haveria de se matar
e vingar as lágrimas sangrentas e desesperadas,
porque onde há razão e causa há culpado,
quem implantou todo este meu fardo?
A resposta foi fatal, com o tempo descobriu
que tudo era uma mentira,
que a sociedade não passava de uma loja de roupas
num campeonato de quem faria a melhor pose,
mas a tragédia de tudo isto é que todos o faziam a sofrer
e que João elevou-se ao conseguir se aperceber.
Brincou com a verdade, conseguia olhar nos olhos de alguém
e descobrir as suas mágoas, o seu sofrimento,
tocava na sociedade, desfazia-a tão bem,
que se transformou num Titã,
os deuses da terra transformaram-no num invisível ambulante,
uma assombração velha como as origens do mundo
que se alimenta das perguntas que as lágrimas fazem...
Eu luto ao lado dos mortos,
de espada e escudo na mão,
no deserto, na terra dos caídos,
à espera que venha uma tempestade de areia,
prometo resistir à jardada dos media,
de pé firme no chão,
os únicos gritos que ouvirão
nesta manifestação serão os de libertação:
abaixo a corrupção!
Manifestação manchada de sangue,
eles que tragam milhões de cassetetes,
balas, tanques e informação corrompida,
eu tenho ao meu lado o estandarte erguido,
morrerei pelo seu símbolo:
em nome do Povo haja consagração
do fim desta apelidada maldição.
Hoje controlo a gravidade,
cada bala, cada cavidade
que esteja a espumar sangue,
chama-me demónio, ó malvado,
pois não conheces a minha existência
e estavas longe de saber que sou teu inimigo,
tenho comigo a ciência de ter profetizado
os passos que vão te deixar marcado.

O Meu Último Poema

Está ali, ou aqui, o meu último poema.
Consegues ver? Está à nossa volta,
ao nosso redor, está em nós.
Está onde não está:
na presença da ausência,
está por descobrir, está a ser respirado,
está nas ondas, no vento,
nas danças e nos cantos das folhas das árvores,
na calçada, dentro de cada casa,
na morte, no silêncio...
em todo o lado, em todo o movimento,
em toda a estática, em todo o tempo:
no Passado, no Presente e no Futuro.
Não procures: está em ti e para onde olhares.
Está na queda, nas nuvens, no céu,
está aqui, está no vazio.
Está nas lágrimas e nos sorrisos,
em todo o lado, em todo o tempo,
o meu último poema és tu,
tu, que me lês,
pois eu morri e tu estás vivo,
mas a minha Poesia nunca morre,
mesmo que vá comigo...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Ainda se ouve, à noite, o eco do cigarro aceso e ritmo das teclas... a música cumpre o seu papel e nós o nosso, seja ele qual for - enquanto estivermos vivos há-de haver algum não é? - e o tempo passa como a quantidade de passos que são precisos daqui a aí, mas tal como o sol que anuncia as manhãs e se esconde para lá do horizonte deixando a lua à solta, cá estamos nós, poetas, sem papel ou com papel incompatível mas desejável à Humanidade, no refúgio do quarto quando a noite ganha forma, expelindo o nosso Universo que, com ou sem papel, vamos escrevendo, adivinhando e até mesmo inventando o papel dos outros. Somos personagens fora do próprio livro, livro de folhas sem nada escrito, como quando o nada se torna em tudo. Haveremos de estar no céu, à noite, a brilhar como a pureza das estrelas utópicas.
Abraço meu irmão.

Nossos Olhos

Gostava de ser velho como tu
e narrar as minhas memórias
a pessoas como eu, bons ouvintes.

Quantos encantos têm os cantos dos teus cabelos brancos?

O branco dos teus pêlos
são fotografias de momentos marcadas com selos
enviadas para as vitrinas das galerias dos teus olhos,
pois há neles o encontro de uma vida acontecida,
talvez mais intensa do que quando foi feita,
espelho de quem és, cicatrizes e tijolos reflectores,
mágicos, são feitos da mesma matéria que outros olhos,
mas há algo neles que se distancia dos demais,
(justifica lá isso com os teus cálculos, ó Ciência!)
será que é o que neles se contém?
Será que é o que eles mostram?
O que são os nossos olhos, para vermos?
Para os outros nos verem por dentro?
Mas há algo não consumado...
Ainda que olhasse e não visse,
ainda que visse e não olhasse,
é ruptura malícia ou brilho apagado?
O que será?

Uma Outra Aurora da Felicidade

Há um lugar algures por aí
onde eu me bronzeie numa espreguiçadeira,
um lugar onde me deite
emergido num mar de estrelas,
onde esteja a fumar um cigarro num planeta inabitado
e bata palmas ao ver um satélite aterrar:
finalmente a Humanidade conseguiu cá chegar!
Era fácil, mesmo assim ainda demorou um bocado.
Talvez tivesse armadilhado o percurso,
mas eu consciencializei-me sem tirar algum curso,
por isso não compreendo como é que se vai vivendo
em cima da calçada onde cada pedra se vai vendendo.
Ressuscitem-me essa porra de sorriso
na escuridão para ter uma luz de presença
e traz-me um gigantesco riso
na solidão que o seu silêncio torna a alma tensa.
Quando não houver compreensão
haja um vinho feliz, quando não houver perdão
que haja um brinde à liberdade
sobre as escolhas que eu fiz.
E que lá na piela do teu coração
a gente encontre muitos ninhos de emoção,
que daí cresçam ovos e descolem passarinhos livres
para subires às nuvens acima da realidade em que vives.
Que chovam penas em vez papelinhos brilhantes
para celebrar as conquistas do que fora utopia antes,
vamos para a porta da felicidade,
pela maneira como a gente se comporta
mereceremos a sua chave.
Qualquer dia abrimos uma estalagem
para contar as nossas histórias aventurescas
onde o diálogo presenciou a coragem
e as cervejas tornaram-se grotescas.

Mas para quê um sentido?
Desde que tenho ido
ao sofá do teu coração
tornei-me temporariamente imortal
e o resto... bem, o resto...
é uma lata de ração para cão
que eu vos empresto,
não faz mal... pois não?

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sou totalmente palpável
no sonho de...
palavras sem sentido,
tudo é uma só coisa
porque vai dar sempre ao mesmo.
O que falta à vida?
Nada... totalmente nada.
E ao resto, que fique onde está,
bem longe.
Esta é a terra da falsidade
onde ser civilizado é manter-se calado
mesmo quando algo está errado,
ser civil é andar na rua como uma tábua
com uma etiqueta ou uma aba
a dizer que o burro é bem-educado,
como se diz a um animal domesticado,
que obedece à ordem
por isso a prece da manifestação
é considerada desordem
enquanto a corrupção
dá festinhas na cabeça do Homem.

domingo, 5 de agosto de 2012

O Monstro

Sou um monstro,
horrível, nojento...
nunca deverei tentar,
estou certo que irei falhar...
Mas porque me deixaram nascer?
Até nisso falhei:
tentar não nascer...
Sempre que tentei ganhei,
mas foi a desilusão,
ainda me lembro disso,
é a primeira imagem
que vejo quando acordo:
tinha tentado,
a vitória haveria achado,
era criança,
e, com orgulho e esperança
de ser abraçado,
mostrei-lhes a conquista
e eis que me disseram
ser insuficiente,
vergonhoso do orgulho,
furioso na vitória,
assim me tornei:
o monstro
que espezinha a conquista,
que odeia os vitoriosos
e despreza as tentativas,
o monstro coberto de escamas,
cada escama uma desilusão.
Houve um dia
que achei o poema mais bonito
e foi num papel jamais escrito.

Reflexão Aos Espelhos Desonestos

Ainda há partes de mim em ti,
não são bocados ou restos,
nem entregas...
são, talvez, momentos de partilha...
mas há algo que em mim falta,
será culpa tua ou minha?
serão as circunstâncias da vida ou do tempo?
serei eu que falto-me, que me falto no espelho?
que me finto quando me devo ser honesto?
Não, não roubaste-me nada...
eu tinha algo para te dar...
está algures na desarrumação da minha alma...
mas está sempre a escapar-me,
a fugir-me como eu fujo de mim,
a esconder-se como eu me escondo de mim
quando a realidade se me quer apertar...
m... e... d...o....

medo?
Somos de quem?
Será que é por ser mortal?
Fugimos do sofrimento mesmo quando é-nos honesto?
quando é a única coisa honesta na nossa vida?
É medo? Medo do quê? De quem?
De nós próprios? Dos outros?
Se sofrermos assim tanto, que fazemos?
Morremos? Enlouquecemos? Suicidamo-nos?
É esse o medo instintivo do ser humano?
Sofrer de tal maneira que se mata?
O medo instintivo de sofrer do ser humano é morrer?
É sempre esse o medo do ser vivo,
tentar afastar-nos da ordem natural das partículas...

À Nossa Morte, Meu Amor

Temos que fugir,
o mundo está a desabar,
pedaços do céu caem lentamente,
vamos, vamos para uma cama qualquer
e fiquemos lá, amor, abraçados,
a olhar um para o outro,
que morramos nos escombros deste planeta,
desde que estejamos juntos,
porque na verdade fomos só a nós que vivemos,
só a nós nos tivemos,
só possuímos, de verdade, as nossas almas...
Amor, façamos amor por uma última vez,
não há outro lugar onde eu queira estar,
quero morrer contigo, ao mesmo tempo,
quero estar no conforto do teu peito,
e ainda adormecerei antes de morrer
e morrerei a dormir, a sonhar contigo,
sem nunca chegar a saber que morri,
morreremos felizes assim...
mais felizes que o sorriso da morte
de ter ceifado milhões de vidas
durante toda a sua existência,
sim, morreremos felizes assim...

Fortalezas da Paixão

Preciso de ti,
sem ti sou como um peixe fora d'água,
agitando-se num pânico de morte,
à procura do mar sem saber para que lado é,
sem saber onde é o norte.

Os teus beijos
enchem as minhas veias,
preenchem de ar os meus pulmões,
tu és a raíz da razão das razões:
tu existes e eu não preciso de espelhos,
não preciso de gostar das minhas roupas,
porque tenho a rapariga mais bela do mundo
nos meus humildes braços...

A História do Vento

Existem chamas debaixo d'água,
são os dragões adormecidos de há eras atrás
que acordaram e desenterraram-se
depois de tantos triliões de anos esquecidos
equivalentes aos quilómetros enterrados.
Acordam agora, agitando os oceanos,
rugindo de raiva e vingança.
Não há ser vivo mais puro que este,
mas também já não há habitat puro
e, ao emergirem dos mares,
berraram pela dor de sentirem o planeta tão impuro,
da imensa podridão do ar,
do veneno do mar e do deserto solar,
impureza tal que desfez os dragões
em berros tão altos e tão fortes
que provocaram ondas gigantes,
berros que se chocaram
e provocaram tornados e furacões...
assim se extinguiram os dragões:
por nossa causa, por causa do Planeta poluído,
e ao que chamamos de vento,
não é mais dos que os seus gritos agonizados
a vaguearem pela Terra
à procura do sossego dos anjos...

sábado, 4 de agosto de 2012

O Homem da Esquina da Rua

Na esquina da rua há um rei
que reina o universo da loucura,
um governador de números outrora
que não tinha amigos, apenas tortura,
e quando chegou a hora,
todos fingiram, todos desprezaram
as palavras do seu nome,
todos abandonaram-no
sem nunca mais serem seu mordomo,
e agora, nestes novos tempos,
ainda há uma névoa sobre quem terá sido,
o homem da esquina da rua desconhecido,
que grita com o ar e insulta as multidões,
que enche a rua da praça de pragas e chagas,
todos se desviam, todos o conhecem,
mas nunca souberam as razões
do homem que fala com as estrelas durante o dia
e com o sol durante a noite escura,
o homem que foi rei, diz ser rei,
o ganancioso enlouquecido
que o mundo murmura...

A Bandeira

Assim se fizeram mil bandeiras,
nas mãos suaves de uma mãe,
nas mãos trabalhadoras de um pai,
nas mãos carinhosas de uma criança,
nas mãos descobridoras de um adolescente,
o mundo inteiro parou e resistiu
para que o estandarte fosse a última coisa a afundar-se
no mar de sangue, tão espesso que a areia não conseguiu absorver,
encrostando-se na terra como lava seca,
enterrando os corpos dos guerreiros...
Bandeira insolúvel, infalível,
na tua alta altura está a firmeza e nobreza
sob os gritos orgulhosos do Povo à Pátria,
a ti se dirigem os olhos dos caídos,
dos chorados e dos sobrevividos,
dos honestos e dos perdidos...
o humilde Povo te agarra, como uma estátua, com firmeza,
ao lado do rei, enquanto as estrelas são devoradas pela nobreza,
somos nós que enchemos tecidos à Bandeira
e a renovamos com as cales das nossas mãos,
veremos a cor da paz na Bandeira?
Nunca a vimos, nunca a sentimos,
como poderemos pintá-la com tal, meus irmãos?

Fábula

Já viste o outro lado da Lua?

Dizem que se alimenta da esperança dos Homens,
que nesse lado da lua há a composição dos melhores pintores
e que foi de lá que se inspiraram para inventar os alucinogénicos.

Dizem também que há lá a Fábrica dos Sonhadores
e que de meia em meia volta vem da Fábrica
o João Pestana com um saco para distribuir sonhos.

Mas eu vou contar-te alguns segredozinhos:
o Sol é a Lua em chamas e calor
pois é preciso luz para que os sonhos se mantenham vivos.

E quando a noite está a cair,
chega o Princepezinho a saltitar
de estrela em estrela para acendê-las.

E os planetas giram pois há uma aragem no Universo,
nessa aragem viaja a origem da vida,
todas as respostas às perguntas do Homem.

Também te conto o mundo continua a acontecer
depois de tu adormeceres mas eu não durmo
enquanto não te vir adormecer.

Podes não ter importância perante a sociedade
mas eu amo-te e se me amas, nada mais é importante
e pode ser que um dia a tua influência sobre a Realidade
seja demasiado grande para passar num instante.

O Silêncio

No meio da água existe um buraco,
um vazio de lágrimas ocupado por uma voz afónica,
incomodativa como o silêncio da morte,
como se os ossos dos cadáveres se juntassem
para chorarem, sem terem cordas vocais.

Um silêncio tão despercebido das pessoas
como a escuridão entre duas estrelas
e ao mesmo tempo arrepiam
como se fossem espíritos a atravessar-nos o corpo.

O barulho esconde, em sua falsidade,
para que não se oiça se não um conjunto de palavras
para haver ruídos nos nossos cérebros
e assim, jamais haveremos de ver olhos.

Na música está o silêncio dos ouvintes,
ouvindo o outro canto da alma,
esse canto que tanto nos identificamos
ou idealizamos na almofada do sonho...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Parasitas

Pasta esta erva,
que se lixe,
a terra é uma merda
mas fazer nada é muito fixe!
O único grito é o do cio
e tudo o resto é brio,
nem tenho pachorra
para ouvir filosofia,
para quê isso?
Para que eu morra?
Não me venhas
com definições
da hipocrisia,
larga-me da mão, porra!
Falemos antes de vacas não pranhas
sem coração nas suas instalações
com quem eu faria.
Vamos tomar um café,
são duas da tarde,
não se faz nada
e eu estou farto de estar de pé,
isto até já me arde,
quero a esplanada!
Porra, já não tenho dinheiro,
se ao menos fosse político,
bem já que não sou,
aproveito e roubo alguém menos verdadeiro,
é que estou em estado crítico
há um café que a minha língua não provou!
Compreendes?
Chama-se democracia,
igualdade, se não tenho dinheiro,
tu tens, dás-me o teu
e ainda te dou um soco na cara
em nome da fraternidade primeiro.
Não foi isto que o sócio prometeu?
Sócios e associados democráticos no parlamento,
aqui nas ruas, sabes como é, é cada um com o seu talento!
Beijos à tua mãe.

Droga Canastrona

Vamos pagar às margens do amor
uma viagem numa montanha-russa
para ficarmos com a adrenalina após o pavor,
e depois, antes que a vaca tussa,
vamos beber um gin com o boi
e fumar setas como se fossem charutos
numa mesa vermelha onde está
um porco amarelo às bolinhas rosa florescente num tacho,
recheado de tomates cortados e frutos,
aí, bêbado que nem um cacho,
ele nos segredará que é homossexual
e finge ódio ao vermelho
para não desconfiarem dele,
nós diremos: "não faz mal,
aproveita enquanto és fedelho,
não queiras ser como o porco,
já o viste? Finge que está morto.
Ainda por cima é canastrão,
mas não te ofendas, porco,
que eu também disse isto
sem intenção nem emoção"
Eis que nos responde:
"Não posso falar, Francisco,
é que estou morto."
"Mas esta voz veio de onde?"
Antes que isto dê para o torto,
vamos mas é embora,
é que a minha imaginação começou a mudar o lugar
e a obrigar-me a escrever versos mais compridos e por aí fora
até não conseguir mais respirar este ar do qual me estou a cansar,
esqueci-me de criar o exaustor ou a ventoinha,
o único que conheço é o da minha vizinha,
já o trouxe, espero que não lhe faça falta,
mas também é para refrescar aqui a malta!
Porra, esta droga não vale a ponta dum corno,
- sem ofensa, boi, não é nada contra ti -,
é que não faz um grande efeito,
vou tomar mais um,
isto assim não tem jeito nenhum.


Drogas Abstractas do Amor

Não te apresses que o comboio espera por ti
tal como esperei estes anos todos pelo teu abraço,
ainda agora chegaste, fica mais um bocado, senta-te aqui,
conta-me as histórias das tuas viagens na minha imaginação,
estou certo que foste pintada com várias cores,
que foste a todos os lados e recantos,
aposto que estiveste em galáxias dentro de mares,
em estrelas com paisagens de montanhas, árvores e rios,
acredito que te tenhas divertido imenso,
espero sinceramente que não tenhas visto o meu espelho
nem as partes mais profundas da minha evolução,
descobriste-te, dizes-me tu?
Pois bem, não sabias que eu te conhecia
como uma luz ao fundo da escuridão,
é verdade, não sei o que está do outro lado dessa luz,
mas um candeeiro não há-de ser, pois não?
Acredito que seja algo mais natural,
talvez algo que não seja de iluminar
mas os meus olhos brilham quando a vêem,
te vêem, e faz-me inventar palavras
sem papel nem nada com que escrever
gravando como tatuagens na minha alma.
Estamos em sintonia, não?
Mas não me apetece continuar,
deu-me na cabeça e agora vou desmanchar e atrofiar.
Porque as borboletas só vivem um dia,
tudo o que é bom dura pouco, não é verdade?
Pois, mas eu só preciso de meio segundo
para te inscrever na infinidade do meu mundo...

Telhados de Vidro

E se eu falhar?
Se surgir por baixo dos meus pés um buraco infinito,
também haverás de ir atrás da minha queda acusar-me,
dizeres-me que nem sequer sei cair?
Se eu estiver em chamas vais acusar-me de não saber arder?
Se eu entrar em coma também vais queixar-te do meu silêncio?
Se o sol não nascer vais pôr as culpas em cima de mim?
Então e tu? Os teus crimes, os teus pecados?
Os teus erros, não os tens? Claro que não,
passas a vida a acusar-me e a julgar-me,
não fazes mais nada na vida!
Pois deixa-me que te diga
que essa única coisa que tu fazes na vida
é a única coisa que fazes erradamente.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O Homem Velho

Senta-se então o homem velho
com as areias do tempo nas suas rugas
desenhadas por tempestades domesticadas da sua solidão.
Os olhos humedecidos de tristezas acumuladas
como um corpo que transpira enquanto se esforça.
As sobrancelhas lutam contra o desequilíbrio
do preconceito que distancia o choro do civilizado.

O homem velho senta-se, deixando cair o corpo,
como se um fardo houvesse por sentar-se outra vez
e outra vez e outra vez...
olhos para ele de esguelha
e procuro nele um detalhe feliz mas não encontro.
Pergunto-me quem é ele, o homem velho
que respira o mesmo ar que eu de maneira diferente,
pesado, profundo...
Noto nele o silêncio obrigatório,
a pele seca e apodrecida de não ter sido abraçado...
a alma dele marcou-lhe bem o corpo,
nem consigo destinguir a diferença
entre o espelho dos seus olhos do resto da sua carne,
o mundo designou a sua postura...
mas vejo nele alguma inocência,
uma inocência qualquer...
talvez a de ter nascido.

Abstinente Vida

Absorto, completamente absorto, fora do meu corpo,
à espera, erguido pelas pernas,
sem nada fazer, sem nada dizer, sem nada querer...

Só sei o quanto o tempo passou
pelas vezes que me deram os parabéns,
porque não dou conta do sol a nascer,
do céu escurecer nem de mim a envelhecer...

Absorto, absorto, completamente absorto,
faço gestos como uma marioneta do vento,
que me vai empurrando como um barco à vela sem remos...
Movo-me por causa das correntes marítimas,
em mim não levo ninguém nem coisas, nada...
como um barco à vela sem remos fantasma,
completamente absorto...
à deriva na lentidão dos dias e das noites iguais
- se houve novas estrelas e novas manhãs não as vi -,
nos meus olhos estão panos esburacados das velas do barco
onde metade do vento passa por elas sem saber...

Não me afundo por haver algo espiritual no barco fantasma,
algo leve... algo que é como ar numa bóia atirada ao mar...
assim vou eu, absorto, completamente absorto,
vagueando sem sair do lugar...

Qualquer Coisa Romântica

Encontrei a magia dos eternos nos olhos de uma rapariga,
ela olhou para mim como quem olha para uma pessoa.

...

Os nossos olhos tocaram-se e surgiu-me a poesia
da liberdade do bater de asas dos pássaros durante o voo deles.

...

Os batimentos do meu coração empolgavam-se
como crianças a meio minuto de realizar um sonho.

...

A felicidade sorria para mim nos encantos do sorriso dela.

...

Até que o Universo concretizou-se:
A beleza do seu cheiro, o toque suave da sua voz,
os passos do envolvimento eram superior a nós.

...

É sem palavras, é sem palavras...

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Minha Humanidade

A ti, por ti e só a ti devo o meu futuro à Humanidade,
tu, que mesmo acorrentada tiveste forças para me abraçar,
que mesmo havendo só escuridão à tua volta
criaste em ti luz para eu te poder encontrar...
tu! que na imensidão da dor desesperada,
quando te só apeteceu chorar,
nunca negaste um sorriso à minha inocência...
tu! que me cobriste quando o céu nos caía em cima,
que me protegeste das balas da sociedade,
que me obrigaste a lutar nas minhas desistências...
tu! que no deserto do desespero e da angústia
inventaste um campo recheado de flores,
que me desviaste das tuas feridas e das tuas cicatrizes...
Tu és o perfeito sinónimo da luta,
fizeste-me tornar homem no dia em que as tuas lágrimas
ousaram em não querer parar,
e nesse momento, nesse exacto momento,
descobri que o mundo era mais, muito mais,
muito mais para além das janelas do meu confortável quarto,
para além da televisão, do computador, do mundo virtual,
descobri de quantas lágrimas são feitos os nossos rios,
de quantos suores são feitos os nossos nevoeiros,
de quantos gritos de injustiça são feitas as nossas trovoadas
e que não são as pessoas, nem os políticos e os seus ideais,
nem seguranças sociais ou outras caridades
que ouvem as nossas preces, os nossos choros,
os gritos das nossas lágrimas,
mas sim os céus, os céus que choram connosco,
as estrelas a lua que sonham connosco,
porque sabem que nós existimos,
que os nossos corações são feitos de carne,
da mesma carne com fim que se desgasta,
que somos humanos e temos alma,
a mesma alma que vive e sente...
Todos somos humanos,
todos existimos, todos sentimos,
façamos então o conjunto
valer o nome da Humanidade...

terça-feira, 31 de julho de 2012

A Vós

A minha alma acabou numa cova qualquer,
a cada segundo uma grama de terra me sobrepunha-se,
(mas desta vez meus caros leitores,
não fiquei de barriga para o ar a ver o céu,
antes ao contrário, de cara no chão,
pois quis desviar-me do cliché cinematográfico),
de costas para o sol, de cara na terra,
não a beijá-la, mas sim de peito escondido,
desprezando o tecto celestial,
não sendo eu digno de o ver
ou a dor fóssil ser mais forte
que toda a beleza que a Terra tem.
Sem querer, voltei a relacionar
a dimensão da dor com o tempo
usando a acção arrastar-me
sem escrever a palavra.
Talvez estejam a ler este poema
com alguma amargura, não?
É que estou a escrever com a frieza
do pensamento ouvindo Brahms.
A verdade é que vejo o brilho das lágrimas,
tão puras que são e não compreendo
a tristeza com que o preconceito me lê.
Quer dizer, eu tento a originalidade
do meu ser, porque não tentais vós?
Não faço tensões de chorar na escrita.
Onde há escuridão há uma chama pequenina
que dá vida e amor há existência do ser,
nem que seja um ser doloroso,
mas vive e enquanto vive poderá escolher.
É claro que não são todos os casos
mas também não são poucos
nem dá para fugir à dor
mas enquanto há vida, há liberdade.
Como vos digo,
só há opressores quando há oprimidos
porque todos somos mortais
e perante a morte somos todos iguais.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O meu sonho é ser poeta
e concretizo-o sempre que o sonho...

Um Homem Só

Basta um homem, um homem só,
para representar a Humanidade,
um homem só com uma só palavra e uma só acção
que nos faça arrepiar na pele mil anos de História,
que nos faça encontrar conquistas, derrotas...
lutas de gerações após gerações,
que nos faça sentir saudade do que não conhecemos,
que nos faça calar para ouvir o ruído das vozes mortas,
basta um homem só, que não tenha encontrado alma,
para nos fazer amar o odiado,
para nos fazer lembrar o desprezado,
um homem só, entre nós,
não inferior, não superior, mas entre nós,
cuja a alma foi não enorme, mas universal,
que cuja só acção, só palavra,
tenha emergido em todos os cantos,
em todos os lugares da Terra,
o homem só, que sem sair do lugar,
tenha nadado os cinco oceanos,
tenha voado todos os céus,
tenha atravessado os sete continentes...
um homem só, que no silêncio
conquistou a voz interior da Humanidade,
que numa só acção,
velejou nos sorrisos do mundo,
nos orgulhos das nações,
nas certezas das esperanças,
um homem só com uma só palavra,
tenha enchido corações,
tenha conduzido as multidões,
tenha, sem saber, mudado o curso da História,
um homem só que, com um grito na alma,
tenha conquistado todos os barulhos,
todos os sons da natureza, todos os ruídos da cidade...
Só, que na sua morte haja nascido flores na sua campa,
lembrado por todas as idades,
que nos seus olhos estejam o reflexo
da poesia de todos os homens,
de todas as mulheres, de todas as crianças...
o homem só, que com ele caminham
os fantasmas e os espíritos
doutros tempos e séculos,
que trouxe o brilho às lágrimas da tristeza e da felicidade,
o homem só, com uma só acção e uma só palavra...

Às Sinfonias

A sinfonia é a alma do compositor,
quando se a toca ressuscitamo-lo,
invocamos a sua alma, a sua voz,
e dividimo-la em vários instrumentos musicais
como um céu iluminado de estrelas,
como se as folhas das árvores dançassem
sonorosamente com as suas notas,
como se o mar vibrasse com as cordas
e dentro das montanhas ecoasse
todos os bichos, em coro.
E algures, por baixo de nós,
a percussão nos fosse tão familiar 
como as nossas memórias
sobre o tic-tac do tempo outrora nosso...

Primeiros Lances

Em quaisquer palavras nos vimos,
nos encontrámos sem parecer...
E nos entre-olhares sentimos
e sonhámos com o outro viver...
Sem sabermos sorrimos
e olhámo-nos com prazer...

Rúbricas e fábulas...
sonhos e fantasias,
vida, vida...

Outras Paixões

Os teus olhos são o meu sonho,
as tuas mãos, as tuas eternas mãos,
a vida inteira as esperei olhando o céu nocturno
como um marinheiro que volta à terra
matando a mortal saudade dos braços de sua amada.

Os teus lábios, os teus infinitos lábios,
são paisagem de uma tela,
uma estrondosa composição de cores
que me hipnotiza como se nada mais existisse.

A tua voz, a tua distante voz universal,
noutro lado do planeta a reconheceria,
a ouviria na surdina dos silêncios,
em toda a presença feminina.

As tuas mãos, as tuas espirituosas mãos,
ressuscitam as águas mortas
de um suor descuidado,
arrefeceriam o sol fervoroso dos desertos,
nelas estão a mutação dos meus pensamentos.

Tu és o Amor que guardo no meu coração
de um tempo eterno resguardado
na vanguarda dos antepassados intemporais.

Canto-te, minha amada, mais uma vez...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Leiturados

Consegues apalpar as palavras escritas,
abraçar com o carinho com que dou?
Será que sabes o que dizes quando me citas
sem saberes quem eu sou?
Será que sabes quantas estrelas tem o meu universo
quando lês a minha poesia, consegues localizá-las?
Será que lês o que escrevo neste verso
ou é como queres quando estás a interpretá-las?
Tens noção
quantos batimentos por minuto tem o meu coração
enquanto dou asas a uma nova criação?
Sabes, realmente?

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Amor e Paixão

A pele que tu conheces
tem o seu próprio universo
testemunha de mil e uma preces
num toque suave de emoções,
completamente submerso,
disperso em convergências,
contactos entre os dedos e as atracções
dum futuro previsível
depois de um passado cheio de provocações,
um desejo gigantesco e invencível
de caminho à lua
onde dar não tem qualquer senso,
até que depois do momento intenso
os nossos olhares chegam a um consenso
porque no amor há o conhecimento aprofundado
de não ter falado, bastou olhar
para adivinhar o meu pensamento,
sou eu e ela, um só num só momento,
o suficiente para conquistar a liberdade
dum lugar no seu coração
com direito à melhor hospitalidade
trazida pelo aconchego da sua paixão,
assim represento,
eu e ela, um só,
num só momento.

Amadora - As Ruas Negras - Parte IV

Amadora, que ruas são estas?
Quantas atenções prestas
a quem está a cair
e olhas sem nunca sorrir?
Porque nos distingues as cores da vida
se são as mesmas as nossas dores
quando nos sentimos sem saída...
Amadora das ruas escuras,
sem luz e sem amor,
não achados, sem procuras,
o sol não produz calor
às sementes criadas na escuridão
crescidas rosas sem pétalas
de condenações perpétuas,
irmandade na solidão
sem algum céu aberto,
coberto pela opressão climática
onde ser bom é ter uma visão apática...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Indirectas Intrigantes

Vamos brincar às indirectas
no recreio da ignorância e covardia
como cowboys com setas
atiradas ao ar sem pontaria.

Completamente não intencional
porque "eu disse por dizer,
não foi por mal" e coiso e tal,
a acção dos cobardes
começa logo a tremer,
não tens é colhões
para dizer-mo na cara
e tens várias razões,
não é ser cobarde,
é inteligência,
porque a resposta acompanha a prepotência
de te atacar com a verdade,
não tenho tempo nem disposição
para falar de gente sem influência
nenhuma, gente que ruma
a um funeral onde ninguém irá
para se despedir
e quem for irá para se rir.

Indirectas é para intriguistas,
gente disfuncional
que serve o capitalismo na esplanada
para falar mal
sobre tudo mas sabe tanto quanto faz:
nada, ignorância incapaz,
cambada de abortos sociais,
desgraça dos próprios pais,
múmia pseudo-burguesa
que nem sabe tratar
minimamente bem
a língua portuguesa,
não estou para me chatear
eu vou por ali além
duas vezes mais
do que eles conseguem alcançar.

Não sou grande,
tu é que tens um cérebro pequeno,
reduzido a um neurónio fundido,
nem com dois mil anos com nicotina
teria a tua língua cancerisna.
É devido ao cheque
entre vários de um leque
entre vários de um sofá.

Metáfora Aos Machos

Os cigarros fazem mal à voz,
endoidecem as cordas vocais após
umas milhares de paças
enquanto passas devagarinho
a andar só em zonas de fumadores
até te encontrares sozinho
entre fumos provocadores.
Até que chegas ao ponto
em que há um eterno encontro
entre o amor e o vício
e já estarás a meio do precipício,
assim o cigarro torna-se objecto
sem afecto mas predilecto,
muito pessoal e privado
para mostrar à malta
que te tem escutado
nessa sanidade mental
em falta.


O cigarro foi feito para se fumar,
produz escarro mas não interessa
também consegue matar
o tempo quando se tem pressa.
Acalma os nervos
pelo menos assim acreditam os seus servos,
também faz bem à saúde
porque se ama o cigarro
que nos engana a atitude
e torna rude a paciência
que atraca a ressaca
com a tendência
de um ambiente de cortar à faca.

sábado, 21 de julho de 2012

Conta-me como nasceste,
como foi quando abriste os olhos
e viste pela primeira vez o mundo?
Casando com palavras amáveis,
desconhecendo realmente tudo,
sou eu, sou assim, no espírito
um hora que talvez mude.

Nascemos iguais mas diferentes,
morremos diferente mas iguais,
o que não é igual é a visão
que me ofereceste do mundo.

Nunca te agradeci por isso,
talvez morra sem saber que no fundo
agradeço-te por teres lutado
para que nenhuma lágrima fosse infiel à vida.


Quero-te dizer que ainda não encontrei,
porque esses óculos que tu me deste
vesti-os por cima da capa da máscara
e quando a tirei, tirei as lentes também.

Foi sem querer, ou sem crer no que vi,
nada nas horas faz parecer mais digno
do que os minutos,
e dos minutos os segundos,
ainda há os milésimos,
que ninguém vê,
que influenciam os segundos
que influenciam os minutos
que influenciam as horas
que influenciam os dias
que influenciam os meses
que influenciam os anos
que influenciam as rugas
da idade dos séculos.

Acreditar não é amar,
não é obsessão certeza,
identificações não são designações,
mas já que se matou a língua portuguesa,
nada diz tudo de um nada mudo.
Serão silêncios ou ausência de palavras?
Parcialidades convenientes.

Coisas de Amor

Não procuro drogas,
álcool ou outras formas de amor,
não procuro luzes, encontros,
regressos ou outras formas de saudade,
não procuro mentiras,
fugas à realidade, sonhos
ou outras formas de ilusão,
não procuro razão
nem qualquer outra forma de verdade,
o que procuro,
é simplesmente tu.

Tu,
que nas asas do meu ser
crias o verbo voar
e dás-lhe outro sentido
que eleva mais alto
na simplicidade de viver.

Tu,
que nos teus lábios
levas o meu desejo,
no teu olhar
os meus silêncios,
nas tuas mãos
o meu lar,
nos teus cabelos
a magia,
na tua voz
a minha saudade,
no teu andar
as minhas nuvens...

Não te quero,
não te desejo,
não te idealizo,
nada de nada...

o teu nada,
meu tudo
real e sincero.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Preguiça de Viver

Arde num fogo sem chamas
aos gritos sobre quem não se chama
perdido nas sombras do que se aclama
na pele por baixo de escamas
sem prumo ao tempo fugaz
num relógio sem ponteiros,
ânsia muito mais eficaz
na ignorância dos interesseiros.

Segurem,
está cair lentamente,
vai ultrapassar o chão
em queda permanente
sem limite e sem travão.
Está a parar de cair,
não lancem o suspiro
que o que está para vir
é rápido como um tiro.

Quem cai não é culpado,
a culpa é da gravidade
de um corpo pesado
criada pela sociedade.

Não percebem
os desesperados
porque não bebem
da fonte dos abandonados.

Quem é louco afinal?
Será o suicida
no meio da gente
que prega a moral da vida
e na prática consente
o mal que se iça?
Ou está nele a preguiça?

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nosso Sangue

Minha Vida,
Não consigo parar de pensar
na desordem de um mundo vazio
que se tornou numa tenda
a abarrotar de produtos e bens à venda.
Já nem dá para nos abraçar,
as mãos estão ocupadas a consumir,
Amor, como é que nós nos podemos beijar
se as nossas bocas estão tão cheias
que já nem conseguem sorrir?
Escorrem nas nossas veias
tantas horas de tempo queimado
pela publicidade.
Em que corredor do supermercado
está a nossa vida feliz e bela?
O que é a nossa realidade
se não conhecemos o resto do mundo?
Amor, o que é o nosso olhar
senão uma promessa de clientela?
Será que a Moral dá-nos um lugar
se dermos uma esmola ao moribundo?
Amanhã ele estará lá outra vez,
a sua função é ser porteiro do alívio
a quem lhe dá um pouco de dinheiro
em troca um sermão em convívio.
Amor, isso não é egoísmo?
Capitalismo este que se tornou uma peste
em que se olha ao espelho a ver se se bem veste
e não repara em quem se tornou,
se realmente o é,
mas o dinheiro abraçou todos os homens sem fé.
Amor, onde é que estás?
Dizem que és tu quem nos muda
mas não te acho capaz
ou nas minhas preces tu és surda.
Que Vida tão absurda,
para sermos felizes temos de ser egoístas,
esquecer o mundo à nossa volta
e celebrar as nossas conquistas,
tão pequenas que são,
não influenciam a revolta
contra a podridão deste mundo cão.
Amor, vamos conversar a fim
de ver se o mundo é mesmo assim
ou se só faz parte de mim...
Porque eu não consigo ser racional sem sofrer,
por mais voltas que dê só vejo tudo errado,
parece que morremos antes de morrer
como se o nosso destino estivesse amaldiçoado.
Amor, dizem que cegas,
então porque é que não me pegas?
Este calor que sinto é infernal
prefiro o teu, Amor,
que à sociedade
nunca haverá de ser normal.
Prefiro os teus lábios
do que uns pares de neurónios sábios.
Espelho meu,
qual de nós é que sou eu,
se o amor não sente nada?
Qual de nós é que já não tem vida
e deixou-se ficar à berma da estrada?
A Vida não é injusta,
a sociedade é que leva-nos a um caminho
que só a nós próprios é que nos custa
na rotina que se ajusta
a sermos indiferentes ao nosso vizinho.
Amor, és um produto ou semente?
Só na aparência é que não há luto
num mundo que se tornou tão conveniente.
Amor, o pecado dos heróis foi a morte,
é o esquecimento a sorte
com que pagas a quem te ofereceu casamento?
Não, a verdade virá com o tempo...

Cartazes Celestiais

Irei para sempre insultar
todos aqueles que ousaram usar
a boca e criar sons,
aqueles que provocaram fortes dolorosos tons
mas criaram brechas nas suas acções
e condeno todos os seus soldados com condecorações,
que para sempre verão o sofrimento eterno
de ser o amor carenciado o seu inferno.

Eu amo o mundo e a Humanidade
e por isso não consigo aceitar tal realidade
onde se geram nos ventres das mães
novas gerações de tirania
trazendo consigo a ironia
de adorar pegadas dos restos dos nossos cães.

Eu condeno nas páginas do meu caderno
todas as artes da felicidade
e espero desesperado por um momento terno
que traz a paixão ardente da mocidade.

Eu sou o homem de Deus
que, como Jesus Cristo pregara aos ateus,
eu preguei a quem não valeu a vida,
que sem lutar disseram-lhe injusta
mas nunca fizeram uma má vinda.

Eu tremo, estou a tremer,
é por esta via de ocasião
em que nada tenho a temer
senão a minha própria solidão.

Irei para sempre inscrever
torturas com enorme avidez
enquanto o ódio se torna amor por nascer
como as asas da mulher que Deus fez.

Ergo-me aos céus
para me entregar ao amor
e mando os homens vestirem véus
a toda a dor, raiva e rancor.

Eu sou o homem da paz
e declaro a mais sangrenta guerra
ao invasores da minha terra
provocadores das acções vis e más.

Eu vendo os batimentos em falta do meu coração
aos tempos da pulsação da nossa paixão.

Sou o sol à volta do planeta,
seco toda a água e leite
a todas as almas
cujo o crime foi aceite.

Eu assino o novo Terceiro Testamento
do mais terrível e horrendo
porque eu deixei-vos, abandonei-vos,
eu não quis saber
se se estão a matar ou a morrer.

Eu criei os homens sem fé
para espalhar a filantropia,
o meu nome é Deus da Hipocrisia,
criador de mares sem avistar maré.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Pecados Humanitários

Eles tentaram penetrar na minha mente
ousaram tentar infiltrar uma voz
para que eu fosse em frente
e me misturasse entre os pós
das terras dos cemitérios
mas eu fui lá conhecer
os cadáveres sérios
que me vieram dizer
as histórias dos mortos
cujo sangue derramado
seria para plantar flores
a um futuro mais contemplado
mas as flores que os vivos plantaram
foram nas campas dos vencedores
para não se sentirem culpados
porque não semearam
as vitórias da Humanidade
e para serem perdoados
idolatram os mortos
com toda a caridade
no deserto dos desgraçados
construindo portos
para alimentar esperanças
de sonhos nunca realizados.


Ilusória Senhoria


Eu sou anti-herói em desenvolvimento
procurando no que vejo um momento
mas parece que estou destinado
a um curso de vida nascido já finado.
Estarei a pregar sempre as mesmas palavras
e incitar as minhas imaginações mais macabras
porque foi o que a sociedade me ensinou
onde o mundo me abandonou.
Sou inconstante,
procurando um instante na vida 
onde o amor venha até à minha alma perdida.
Conto contas de uma busca incessante
que na escuridão me habituei,
quando vi a luz ceguei
e agora já não sei,
misturado com sonhos e ilusões,
a meio da realidade creio
estar no ceio de um sonho ou pesadelo,
enquanto engano-me nas conclusões,
às vezes esqueço-me que sei-o
e silencio na minha o apelo
de um coração que não hei-de vê-lo.
Mas eu não precisaria de olhos se tivesse asas,
citação de vida, máxima sem sentido,
descontextualizada, mas como ela,
eu estou completamente perdido.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Previsões Para o Capitalismo



Em 2322
já se poderá comprar a morte,
já se poderá comprar tudo o que se desejar,
e depois,
quando todos tiverem pedido tudo,
só o nada há-de ficar
e o mundo será mudo,
porque o dinheiro
não comprará o nada
e a morte será o sonho derradeiro.

Às Criancinhas Que Jesus Cuspiu Na Cara

Aposto que apostaste
mas só ganhaste o contrário da glória,
é sempre a mesma história,
a tua saliva cospe a tirania
do ódio só, nesse olhar invejoso
sem conseguir ver o sol durante o dia,
seu pau quadrado sem gozo,
vives numa nau fora d'água
porque toda essa mágoa e agonia
só traz areia do deserto
com que a vida se ri com toda a sua ironia
enquanto abraça toda a prostituição beijada pelo desafecto,
tragam dinheiro que até esse material criou o seu dialecto
e engana mais que o Demónio ainda mais o mundo virtual
que suga mais a quem não sabe viver o que é real
foge fugindo ser social,
a todos nós,
que nos caia o mal e desgraça,
na indiferença dos nossos deuses
que adoramos no crucifixo da praça,
cheios de pregos na nossa casa
pelo lugar mais odiado que arrasa
para cairmos mortos sem saber,
faltamos ao trabalho,
mas há sempre uma nova vaza
por isso não vemos oportunidades,
enquanto revoluções acontecem no meio de tempestades
e não parou de trovejar, de chover, de destruir,
quantos mais vivos mais os não vistos hão-de sorrir,
dêem-lhes um altar se eles existissem
mas mesmo que a luz deles nos aponte
e os seus olhos estejam acima das nossas cabeças,
nós somos tantos que até fazemos sombra
onde na escuridão vê-se a lua cheia
que transforma homens em lobisomens,
anti-heróis e desordens
para ninguém 
que haja jamais ter praticado a pureza do bem.

Ainda bem que Jesus se foi embora 
e levou com ele todos os heróis e cowboys,
homens de cara esquecida e desfocada,
porque viu sem demora
que esta gente que cá anda não vale nada.

Deixai os homens baterem-se por poder
que a todos eles morrerão quando chegar a hora.

domingo, 15 de julho de 2012

Fase Dois da Irrealidade

Quem me dera descobrir que isto tudo é mentira, antes de morrer
quem me dera poder festejar isso até não conseguir mais viver,
quem me dera dar-me o ar que as árvores suspiram,
quem me dera desejar-me calar as gaivotas que não voaram,
quem me dera ser real e existir, tão real como real é sorrir,
quem me dera não haver cães com dentes opressores,
quem me dera que hoje não houvesse tempo,
quem me dera poder festejar infinitamente esse momento,
quem me dera o silêncio que não traz o ruído de pensar,
quem me dera te amar sem que houvesse espelho a questionar,
quem me dera assassinar estes poemas,
mas eles são eu eles são mentiras eu sou eles,
um berço de peles sem tendões no esqueleto
onde dormir é acordar sem seres
nas casas sem portas onde não há olhos pretos...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Outros Encantamentos

E assim repentinamente,
só via beleza em todo o lado,
é esta a leveza que acontece quando se fica apaixonado.


E o mal não tem importância
sejam inconsistências da ganância
sejam preferências não razoáveis
neste ar que respiro
pensamentos afáveis
em delírios aleatórios.


Tudo é belo, tudo é magnífico,
todos os caminhos vão ter ao suspiro pacífico.

Agora vejo como nunca vi,
como tudo se desfigura à minha volta quando estás aqui.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Meios Sem Fim

Não há garfos,
alguém viu os nosso garfos?
Ainda ontem os tinha deixado em cima da mesa...
Fomos roubados? Fomos roubados...
Não temos garfos.

Mas ainda há facas?
Manda-as fora,
sem garfos não vale a pena ter facas.

Só nos restam as colheres.
Colheres para que solução?
O vazio também está nas mãos.
Não, nunca existiram talheres,
a nós nunca tiveram qualquer utilidade.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Amadora - As Ruas Negras - Parte III

Eles atacam-nos, criticam-nos,
como se já nascêssemos culpados
por cada crime somos nós os acusados
mesmo não estando sentados na cadeira do réu.
Será que eles sabem que não confiamos na cor do céu?
Porque às vezes também se confunde com o mar,
em vez de estarmos seguros só desejam nos matar.

Se o lugar onde vivemos faz ser quem somos
então onde é que eles vivem que tanto criticam sem saber?
Eles falam mal de nós mas somos nós que estamos a morrer.
Nós vivemos o perigo de viver neste lugar
sem esperar que um dia havemos de parar de respirar
por uma faca que nos pode penetrar,
por um mal entendido que nos pode matar.
Aqui não há homens,
aqui há soldados
desarmados mas armados a dar ordens,
porque aqui os não amados
são escravizados e mal-tratados.
Aqui, além do preto e branco,
também há o vermelho
e o perfume da testosterona
que abunda nestas ruelas,
que assusta o fedelho
à tona das celas.

O que temos nós realmente,
uma prisão onde todos os dias
podemos sair mas acabamos por voltar,
antes fosse este o nosso conforto
mas depois do pôr-do-sol
alguém poderá cair morto.

Será que eles sabem que as opiniões deles provocam mais danos
do que os canos das pistolas?
Será que eles se não sabem que nós também somos humanos?
Porque eles disparam frases de cartolas
e nós choramos de ódio todos esses insanos
que nos levaram injustamente,
tão desnecessariamente
porque aqui roubar é apostar no caixão.
Será que a culpa é do ladrão
quando não é ele que tem a arma na mão?
Será que deve ser morto por roubar
como se mata um cão
depois de se diagnosticar
que nada se pode fazer
a não ser morrer?

Será que a minha zona pertence a Portugal?
Ou é um fim do mundo numa terra semeada com sal?
Será que fomos paridos já nosso funeral
se a nossa própria terra nos quer mal?
Ainda há lágrimas de esperança
porque ninguém matava quando era criança.
Mas estamos abandonados pela Humanidade
nesta terra selvagem onde se consome a coragem,
são eles que provocam a eternidade deste inferno.
Não somos nós que fugimos, estamos sempre cá
porque há qualquer coisa má
que nos persegue para onde quer que se vá.
E nada acontece, ninguém ouve a nossa prece,
mas eles criticam-nos constantemente,
nós vivemos no ceio da maldição
e não conseguimos sair desta maldita prisão
por causa das descriminação dessa gente.

Afinal, quem é que é inteligente?

segunda-feira, 9 de julho de 2012


Não entendo,
vejo-os todos a lutar pelo poder,
cambada de ignorantes
armados em inteligentes,
esses que hão-de morrer,
andam na luta dos montantes
mas acabam como todas as gentes
que lutam por sobreviver.

O Hino Dos Imortais

Tens razão,
não sou nenhum deus,
sou humano dentro e fora,
tornei-me imortal,
a realidade é que posso ter tudo o que quiser
seja dinheiro ou amor de uma mulher
mas nada acompanha a minha idade.
Tenho no meu corpo o desejo dos mortais,
o tempo nunca me faz falta,
não há tempo porque não há ritmo,
não há ritmo porque não há limite na pulsação,
não há pulsação porque não há tempo,
porque o tempo é para quem é mortal
e tem mais pressa em não morrer
mas o tempo continua a passar
e o momento é rápido a acontecer,
único mas há-de sempre lembrar
com grande carinho recorda a história
de um amor que embala a idade mais próxima da morte
à escala de um conjunto de acções
onde as horas e os anos não passam pela memória
e com sorte ainda morre sem saber
que a morte lhe veio buscar
por razões misteriosas
que mete medo a quem
viveu tentando chegar aos cem
amigos e acabou sem.

O amor é para os mortais.
Os desejos, os fetiches, os sonhos 
são para os mortais,
são momentos com prazo de validade
da gente que vive uma realidade
e morre sem saber que mais real
foram esses sonhos, desejos e fetiches
do que a verdade a que se subjugaram
matando-a por cada causa que conquistaram
contra a inexistência de ser
quando outros viveram sufocados
e nunca ousaram viver
porque vivem cansados...
tudo isto é muito chato,
porque eu não sei se sou velho ou novo
e é o único facto que desconheço
sem ter algum preço
sobre porque é que raio não mereço
a mesma mortalidade
de alguém que foi para a cova
cujo corpo entrou em decomposição.
Não há nada que aprova
a minha admiração
porque eu conheço o mundo tão bem
e não há nada que já não tenha provado,
a vida tornou-se um fardo...
mas qual vida? Se morrer não me assiste
como é que a vida existe?

O meu único desejo é morrer,
é sentir o meu tempo a arder
e temer a morte,
já tentei todas as formas de suicídio,
nada faz o meu coração parar de bater
a minha alma quer desaparecer
mas o meu corpo é a minha prisão
e já ando para aqui
em deambulação
sem saber a razão,
a única justificação
que ficou por dizer,
não tenho rugas,
poderiam ser as minhas fugas
na esperança que visse ponteiros a rodar
com o desespero e a stressar
mas mais uma vez,
isso é para quem há-de se calar
de vez.


Rastejantes

São fantasmas as palavras
que um dia nos vieram prometer,
acções reinantes e subjugações
sem nunca se entreter
e trabalhar com boas intenções.

São calúnias as que se ergam
mártires de ninguém,
abafados pela sombra
calados pela opressão,
criminosos sem crime
se a nós houver coração,
se a nós existir Humanidade,
se a nós o brilho vier de dentro,
se a nós não nos abalar o medo,
se a nós não nos couber o martírio,
nós, que alguém somos,
haveremos de ser ninguém
porque não há acções,
a indiferença provoca infertilidades
sobre o que é ou poderá ser
e uma são todas as verdades
fracas, abaláveis, falíveis
onde há almofadas para adormecer
impalpáveis, irrealizáveis
que a inteligência há-de sempre prever
inconcebíveis, instáveis e substituíveis, renováveis
e servidoras de uma só nação
de um qualquer que se mete na frente
sem saber existir no planeta,
na História, não nasceu deus
mas deus se quer fazer
sem nunca estar contente
vai concebendo o nosso mundo
a seu belo prazer...

quarta-feira, 4 de julho de 2012


Estás sempre a emprestar os teus lábios
mas quando é que realmente os entregas?
Não existem amores sábios
porque quando se ama não há regras.

domingo, 1 de julho de 2012

Entre Beijos - Embriaguez Fundamentalista

Olá menina,
eu 
sou o senhor doutor 
de sonhos,
eu 
sopro
e faço vento,
eu
sou razão sentimental
eu
amo
eu
afecto
o céu
com
a
minha
alegria,
eu
sou
fantasma
da
felicidade,
eu
tenho
colheres
e
como
todos
os
dias
pão,
eu
conto
sem
mão
e
hoje
não
preciso
de
ninguém
a ti
exactamente
aqui
e
aqui
e
aqui
eu
sou
o avacalho
de
nuvens
no
céu
no
mar
e
na
terra
eu
sou 
nevoeiro
de
árvores
e
tenho
mil
e
uma
partículas
desordenadas
a
culpa
é
tua
e
do 
meu
que
treme
e teme
o chão
que
tu
pisas
eu
descomprimo
sentimento
também
sou
água
do
fogo
que
desvanece
na
noite
de
lua
cheia,
eu 
sou 
corpo
pra
preencher
toda
a
tua
poesia,
eu
sou
poeta
que
te
escreve
na tua pele
na
nossa
aglomeração
sem
saber
estou
a
escrever
na minha pele,
porque
tu
e
eu
somos
um só coração
e
todas
essas merdices clichés
não
tenho
palavras
prefiro
te
beijar
para
ver
se
é
real
ainda
hoje
acordei
e
pensei
qual
de
nós
é
meu,
porque
já 
me
confundo
com
tudo
é
amor
é
qualquer
coisa
inexplicável
sobre
o
vapor
do
bafo
da
tua
boca
que
é
horrivelmente
belo,
cheira
muito
mal
mas
eu
gosto
só 
porque
é
teu.
Topas?
Eu
sou
a
frenética
poética
da
paixão
quando
te
toco
existe
uma
razão
no
mundo
que
o
torna
humano,
tu
e
eu,
nós.
Estou
com
calor,
acho
que
beijei
o
sol
é
que
fiquei
cego.

Pedaços de Fotografias Rasgadas

Sabes, 
eu não jogo bem da cabeça,
sou completamente insano,
porque o planeta gira
num teatro absurdamente desumano.

Milhões de pessoas a morrer à fome
e eu não sei se me apetece comprar
bolachas de chocolate ou baunilha,
mas enfim, vou beber um café,
o que se faz no Parlamento
faço eu na esplanada
para queimar o tempo
já que não se faz nada.

Sou louco
mas é por conviver com loucuras,
porque há guerra em nome da paz.
Eu até me queixava mas não tenho tempo
a escravização existe desde o momento
em que o despertador toca,
quem precisa de fumá-las
se a fome nos dá a Nossa Senhora da Moca?

Eu sou defensor da democracia
e da liberdade de expressão
desde que tenham a minha opinião.

Quem contradia
com um pedaço de pão na mão
depois de tantos dias a passar fome?

É a Nossa Senhora da Caridade
da Nossa Senhora da Igreja Covarde
servidora de Deus Nosso Senhor e Nosso Dinheiro.

Nós matamos e crucificamos
e no meio de tudo isto,
há o álcool e o sexo
onde sempre vamos
esquecer os actos mundanos.

É claro que sou louco,
porque tudo o que está mal
está a ser considerado normal
pouco a pouco.

Meus senhores eu apresento-vos a evolução,
o poder dos homens existe
mas o dinheiro é que está na nossa mão,
há quem goste de xadrez, quem goste de jogos virtuais,
nós não, nós gostamos de brincar com vidas reais,
hoje iremos ali à Somália explorar um bocadinho mais.

Sois tão obcecados com contas bancárias
que confundes pessoas com algarismos,
não tendes mentalidades primárias
mas tendes na vossa visão estigmatismos.

Sem ofensa, mas não passais de um mortal,
e a um imortal lhe interessa a morte,
porque não sedes racional
e deixais a vossa corte?

Vós iluminais o mundo de escuridão,
sendo vós a luz mas esqueceis
que nós estamos no escuro
e conseguimos ter melhor visão
(réis, sempre à procura
de metade de seis).

Agora falemos de mim,
o que interessa dizer?
Não tenho importante importância
para exportar poder.

Lá se vai uma chaminé,
um fumo, uma coisa ali ao pé
da fábrica desintoxicadora
dos ares e ambientes amadora.

Ainda bem que sou um cérebro pensante,
desmovimentado ainda assim andante,
escrevo escrevo escrevo escrevo
muita coisa irritante
que não me sai da veia mas sim do nervo.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Tangas E Mangas


Há aquelas mulheres que merecem o respeito do coração
e há aquelas que são cadelas
que se acham belas donzelas
mas são desprezadas abaixo da escravização.
Nós, os homens, somos todos iguais
só porque há burras que escolhem os gajos que estão a mais!?
Nepia, não fales à toa,
limpa mas é esse esperma no cantinho da tua boca,
tu é que tens tanta fama de perna como de puta louca.
Sê bem-vinda à realidade, isto não é um conto de fadas,
tu é que decoras um gajo com músculo
que só serve para te dar chapadas.
Tu é que vais atrás do coro manhoso
de um príncipe encantado
mas depois chama-lo merdoso
por te ter desprezado
quando viu uma gaja boa e olhou para o outro lado.
Mulheres como tu não são consideradas gentes,
são prémios dos homens,
objectos irreverentes de usar e deitar fora
quando começam a criar desordens.
Por isso decora:
se quiseres continuar como essas espécies de mulheres
faz a posição que o teu homem adora,
não é por causa disso que andas sozinha agora?
E depois dizes que ele não te merece,
mas então qual é que é a tua prece?
Ah! Já sei!
Andas aí a rodar à GT
à procura de quem mereça as tuas mamas?
Não sei para quê, toda a gente as vê.
Diz-me lá, procuraste o principezinho em quantas camas?
Não o achaste em nenhuma parte
porque só andaste com gajos que fazem do sexo uma arte.
E depois admiras-te por te acharem um mero anexo para o abate.
E, cá para mim, a coisa funciona assim:
ele tá-se a cagar para ti
porque há mais vacas como tu
que viram sempre o cu,
és namorada de um namorado
que fode numa outra morada
e tu nem sequer dás conta de nada.
Podes vir com insultos
e tumultos, tu nem sequer
sabes o quão sujos
são os nomes nas tuas costas.
Tu és um jogo de apostas
onde basta um par de notas
que tu te encostas e roças,
tu até já o fazes inconscientemente
que a coisa acontece assim muito rapidamente.
Tu não és uma mulher, és uma dama,
uma peça de xadrez,
o amor do teu gajo é só da cama,
tu é que não o vês.
Estás sempre a ser encornada
porque nessa relação
és a única pessoa apaixonada
mas isso não é traição.
Pois então,
cadela que é cadela
anda só atrás de cão?
Ah já entendi!
É aquela história macabra
em que tu és a cabra
há espera do príncipe real
para te transformar em princesa
mas enquanto não encontras o tal
vais deixando mais uma pila tesa.
humm... agora vejo...
tu no sonho e eles no desejo...
bué-da fixe...
tu na fantasia e eles no fetiche...
o único espaço que ele quer conquistar é na tua vagina
não no teu coração,
a ironia é que vens falar com mania
mas a tua personalidade está no teu rabão.
A tua lista já é um rolo,
ainda por cima
só consegues foder no patamar do bartolo.
Da vida é só isso que te vale
que a verdade não se cale
sobre quem não tem miolo
como esse teu cérebro feito de bostas
de tal maneira que já se considera um dom.
Olho para ti
e sinto... sinto.
Tu tens... tens...
apenas, tens.
Nos teus olhos...
no teu olhar...
há... é...
simplesmente é!
Não há palavras
mas tu existes...

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Minha Casa

O que esconde um sorriso?
Será que é verdadeiro
numa criança cuja a existência
é a de um objecto
para espancamento
dentro de uma casa em decandência,
quero dizer,
para onde vão as lágrimas
se os esgotos estão entupidos?
E ainda não entendi se há tecto
ou se o sol não quer entrar
porque está escuro,
já nem olho por cima de mim
porque nesse universo há um furo,
uma escapatória, uma ilusão
que ilude a ilusão que se tornou a realidade
de uma solidão que não encontra o sentido
neste labirinto que se tornou a verdade,
estou completamente perdido,
não sei o que é verdadeiro,
desconfio,
já desconfio da minha desconfiança
porque as minha janelas são espelhadas por dentro
e não inspiram confiança,
sempre que me olhava por elas
rachavam pelo meu centro,
estilhaçavam por todo o meu corpo
e dissolviam-se nos meus músculos
consumindo cada oportunidade
de um sorriso na realidade.
Que casa é esta?
Onde a sociedade se torna desonesta
porque armários não são para guardar,
são para esconder,
corredores infinitos
cheios de vazio onde o oco
de uma voz tão feroz
em suores hirtos
que inundam pouco a pouco.
E se eu for infeliz?
Foda-se,
esta casa nem fui eu que a construí
mas no entanto pertenço tanto aqui
como estas paredes húmidas,
de pele a cair tão devagar...
já não reconheço...
será maldição?
Eu sou a contradição
enquanto estiver vivo...

sábado, 23 de junho de 2012

A Crónica Do Poder Crónico


Meus Senhores,
mandei organizar esta conferência de empresa para vos informar da lista de mortos. Antes de mais, devo acrescentar os meus pêsames a todos os que estão para morrer em breve na lista e os que já morreram. Agora o mais importante, a resposta à pergunta que todos têm feito nestes últimos dias: quem vai ser o último a morrer? Pois bem, cidadãos, serei eu. Visto que não podemos pôr nenhum ser humano fora da lista, devo ser eu o último a morrer. Em primeiro lugar, porque fui eu que fiz a lista das sentenças. Em segundo lugar, porque sou eu que mando matar e, como vocês devem imaginar, não é nada fácil mandar matar, às vezes é preciso sermos nós a ter de disparar o gatilho porque há coisas que me ultrapassam (felizmente é só isto) como a cambada de incompetentes sem profissionalismo nenhum que nem a burocracia sabem fazer e, como devem calcular, eu - que preciso de dormir as minhas dez horas por dia - tenho de me levantar mais cedo, tenho de me vestir logo de manhã, tenho de sair à rua logo de manhã, tenho de entrar num carro logo de manhã, ir até ao Terreiro do Paço logo de manhã, que são exactamente quinze minutos e fuzilar eu próprio as pessoas da lista, ainda tenho de as ouvir berrar histericamente, o que, como já devem ter percebido, não é nada saudável para a minha cabeça. E para concluir, a minha função é mandar matar, e só posso morrer quando não houver mais nenhum ser humano para mandar matar. Na verdade, serei a penúltima pessoa a morrer, porque tenho de mandar alguém matar-me, como devem imaginar não posso mandar matar-me a mim mesmo, tem de ser alguém com patente mais baixa, inferior. Mas esse, também já o escolhi: nada mais, nada menos, que o meu filho. O que me levou a tal conclusão foi que não há ninguém mais melhor que eu e sinto que são nos meus órgãos genitais que está a esperança e salvação da Humanidade. E quem será a mulher que terá a honra de partilhar os genes para a continuação da nossa espécie, perguntam vocês, e eu respondo, que será um óvulo modificado geneticamente para que o meu futuro filho possa, como um das funções principais, ser fisicamente igualzinho a mim e assim possa criar uma estátua minha. Eu que estão a questionar-se como é que o meu futuro descendente vai aprender a construir uma estátua. Pois bem, também pensei nisso, será, neste caso, um livro. Agora vocês perguntam-se como é que o meu futuro filho aprenderá a ler, também já tinha pensado nisso, será, sem tirar nem pôr, eu. Agora os senhores estarão a pensar como poderei ser eu se consto na lista para morrer e eu respondo assim: ressuscitar. Criámos, meus senhores, um aparelho totalmente eficaz que ressuscita depois de três segundos morto. e portanto, voltarei à terra para continuar matar. E agora, meus senhores, devo anunciar-vos que todos terão este aparelho convosco, para eu poder continuar a mandar matar como exige a minha profissão, mas não se preocupem, vocês ressuscitarão para eu voltar a mandar matar-vos e depois de mortos, ressuscitarão para eu poder voltar a mandar matar-vos e assim sucessivamente.
Obrigado e até à próxima.

Preto e Branco?

Estou sentado no sofá
a ver o mundo a acontecer pela tv,
estou do lado de cá
aconchegado,
sem questionar o porquê,
só vejo factos e acontecimentos
preocupações banais,
erros considerados normais,
mas não vejo momentos
a não ser este prato de todos os dias,
vejo guerras como se fosse cinema
às vezes mudo o canal
porque o coração torna-se um problema
questionando irracionalidade animal
mais sangrenta a humana
que não se contenta em matar
não é amor, é vício o poder de poder torturar
que por amor à paz deve castigar,
quanto mais sei mais questiono:
se este mundo tem dono,
condenou-nos ao abandono?

Mas à parte disso,
vejo a fé num sorriso,
numa risada,
numa conquista,
num grito de liberdade,
numa ajuda,
vejo actos tão simples não divulgados,
são os pregos para buracos
onde escapa o vazio
nesta máquina do mundo poluída,
condicionados por esta vida
que pode ser tudo
se por todos lutares,
pode ser uma vida cheia
se houver lugares
preenchidos por amor
que de sempre em sempre semeia
porque o amor cresce naturalmente...




quinta-feira, 21 de junho de 2012

Colagens

Não uso o baralho todo
nem bato bem da cabeça,
dou-te toda a razão
e ainda sou eu a acabar a tua frase,
porque o que dizes
já estou farto de ouvir,
na verdade não me fartei
usei apenas um expressão
porque eu já sei
a que horas contas
as mesmas palavras
e demonstras
um sabedoria previsível
onde estamos todos incluídos,
não é totalmente plausível
mas tu fazes a tradução
da minha dicção
que só a ti é perceptível.
Mas como és tu incrível,
quem te inventou?
Precisamos de mais vindos
de onde te fizeram,
não sei se erraram
ou se quiseram,
mas se foi erro
então eu também quero errar
mas não vergo linhas
para continuar
porque não sei contar
quantos contos hei-de contar,
vem mais um pedaço
para eu despejar,
como admiro
estas asas de aço
que visto, firo
e resisto
com mais sorrisos sinceros
que iluminam
olhos escuros
porque eu sou feito de furos
que não me dominam.

terça-feira, 19 de junho de 2012

[O Título És Tu Que Escreves]


O que vos é normal é indiscutível
mas quando há uma realidade contraditória
aos vossos olhos é sempre impossível,
é sempre a mesma história...
espero na esperança de ver o fim
enquanto escrevo estes pares de versos,
tomara que fosse tão simples assim
mas sentimentos submersos
são vozes berradas nas bordas
de um corpo às voltas a si próprio
sem saber onde cair morto
questionando se o planeta
é mesmo assim ou é do ópio...
mas deixemos essa treta
e vamos ao que interessa,
mais uma vez estamos a ter esta conversa.

Esse olhar a mim não me engana,
podes vir com aldrabices,
só estás é a dar cana,
mas eu não estou para chatices,
faz o que quiseres,
já cansei, fiz de tudo e agora não sei,
deves gostar de me ver sofrer,
não tens noção,
não consegues perceber
as facadas no que dás no meu coração?
Não sabes o quanto estou a enlouquecer,
de mãos na cabeça sem saber mais o que fazer.
Tornas-te uma ferida na minha alma,
tem cuidado, está a ficar em crosta
e ficarei apático em relação a ti,
mesmo que infecte eu tive a dignidade de ficar aqui,
exactamente aqui, bem ao teu lado,
mas eu continuo a lutar pelo nosso Fado
em nome dos nossos laços
mesmo que novos dias sejam fracassos,
morreremos unidos,
por mais que me possas magoar
continuarei sempre a amar-te.

Eu sei e nós sabemos que a culpa não foi tua,
nós lutámos, esforça-mo-nos mesmo que cada dia seja escasso,
mesmo que um dia a nossa casa seja a rua
temos o nosso amor que me acalma em cada teu abraço.

Acima de tudo eu te agradeço
porque o teu amor não tem preço,
ensinaste-me a perder,
a conquista a mim não me diz nada,
maior luta é a de sobreviver
e cada dia é-me uma nova chapada.


segunda-feira, 18 de junho de 2012

Espelho Meu, Sou Só Eu?

Dizem que o mundo é redondo
mas eu vi um canto em cada pessoa,
e pior, vi pessoas engolidas por um canto,
nem conseguia perceber se o vazio estava nelas,
se o vazio eram elas
ou se elas é que estavam no vazio.
Não foi o silêncio,
não foi a falta de palavras,
foram as palavras a mais,
o paleio frio enganador
revelador da dor
da ausência de amor.
A personalidade é insuficiente
e o indivíduo fica dependente
dum vício necessário de demonstrar
algo irreal, um ser ou ter,
acabando por soletrar
na covardia de parecer.

Porque o que deixou de ser
era o que foi parecer,
então o espanto
de alguém ser tanto
que parecia um homem
nunca deixou de ser criança
num canto qualquer da desordem
da agonia e amargura
que se quer esconder na esperança
de alguém ter a cura
ou uma mão honesta e mansa
cheia de encher o vazio
de uma realidade
daquele que nunca conseguiu ser frio.

Espelho meu, espelho meu,
será que sou só eu?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Primeira Impressão

Julgaste-me na primeira impressão,
ouviste falar do meu nome 
e achaste conhecer-me
antes de me conheceres em primeira mão.

Pois então,
como me conheces se nunca conversaste comigo?
Sabes se o cão que falou de mim é meu amigo?

A matemática de deduções é perigosa
quando se ergue só numa linha de reflexões rigorosa,
porque quando se odeia, 
odeia-se a pessoa e tudo o que ela faz
e quando a acção é boa, as intenções são más.
Não é esse o pensamento que o ódio semeia?


Não sei onde cair morto,
falo dos poemas da minha alma que tu desprezas
para mais tarde leres com calma as minhas rezas,
e à medida que me torno uma mera memória
os meus poemas tornam-se mais vivos.
Morri, não há nada mais a escrever,
é o fim da minha história,
adormecido num caixão sem adjectivos
porque não me quiseste ler
mas no entanto estranhaste
alguém ter falado de mim no funeral,
não me conheceste assim,
afinal, era irreal o que pensaste.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

A Máquina do Mundo.

Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-para-subjugar-animais-forçar-escravos-a-aumentar-a-produção!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-tortura, crucificar-escravo, ficar-cruz-pregado!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!

O Homem trabalha.
O Homem trabalha.
O Homem trabalha.

Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-para-subjugar-animais-forçar-escravos-a-aumentar-a-produção!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-tortura, crucificar-escravo, ficar-cruz-pregado!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, trabalho, tripalium, três paus!

Traball, traballo, trabalho, tripalium, três paus.
Vida-em-três-idades.

A criança trabalha, a criança trabalha, a criança trabalha e a criança trabalha!!!
A-criança-trabalha-na-escola-para-mais-tarde-trabalhar-melhor.
A-criança-trabalhará-melhor-e-será-alguém!
A criança trabalha, a criança trabalha, a criança trabalha e a criança trabalha!!!

O Homem trabalha.
O Homem trabalha.
O Homem trabalha.

Traball, traballo, tripalium, três paus!
Vida-em-três-idades!

O adulto trabalha, o adulto trabalha, o adulto trabalha e o adulto trabalha!
O adulto trabalha para a família trabalhar melhor!
O adulto trabalha para viver para trabalhar melhor!
O adulto trabalha, o adulto trabalha, o adulto trabalha e o adulto trabalha!

O Homem trabalha!
O Homem trabalha!
O Homem trabalha!

Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-para-subjugar-animais-forçar-escravos-a-aumentar-a-produção!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-tortura, crucificar-escravo, ficar-cruz-pregado!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, trabalho, tripalium, três paus!
Vida-em-três-idades!

O idoso trabalha, o idoso trabalha, o idoso trabalha e o idoso trabalha!
O idoso trabalha solidão!

O Homem trabalha.
O Homem trabalha.
O Homem trabalha.

O idoso morreu.
O idoso morreu, o idoso morreu, o adulto morreu e a criança morreu!
A criança não está a sonhar!
O adulto não está sustentar!
O idoso morreu sem aproveitar!

O Homem trabalha.
O Homem trabalha.
O Homem trabalha.

Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-para-subjugar-animais-forçar-escravos-a-aumentar-a-produção!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, tripalium, três paus!
Instrumento-tortura, crucificar-escravo, ficar-cruz-pregado!
Trabalha, trabalha, trabalha. Trabalho!
Traball, traballo, trabalho, tripalium, três paus!
Vida-em-três-idades.

Temos de trabalhar!
Temos de trabalhar!
Temos de trabalhar ou morremos a tentar!

Trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha
trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha!

Descansar para trabalhar!
Comer-beber-respirar-e-mijar!
Necessidades básicas para o Homem trabalhar!
São os nossos direitos à roda do trabalho!
Trabalho! Trabalho! Trabalho! Trabalho!
Traball, traballo, trabalho, tripalium, três paus!
Instrumento-para-subjugar-animais-forçar-escravos-a-aumentar-a-produção!

Trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha
trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha trabalha!