Acordo.
Desligo tudo o que deixei ligado.
Preparo-me para sair e ir trabalhar.
Saio.
Chego à estação.
Entro no comboio e sento-me.
Olho para a janela e vejo:
Vejo muitas casas,
vejo um rasto de plantas,
vejo muitas pedras.
Vejo uma criança a brincar na estrada,
vejo adolescentes a vandalizar a mente de uma criança,
vejo um acidente de carro,
Levanto-me e saio.
Trabalho.
Acabo o trabalho diário.
Vou-me embora.
Chego ao comboio.
Sento-me.
Olho para a janela e vejo:
vejo um roubo,
vejo um bêbado a gritar irritado com toda a gente,
vejo um homem a ser esfaqueado por adolescentes,
vejo um assalto a um banco,
vejo casas históricas com gatafunhos nas suas paredes.
Saio do comboio.
Chego a casa.
Deito-me no sofá.
Vejo televisão.
Vejo o primeiro-ministro a dizer que o país está num bom caminho.
Vejo televisão.
Adormeço.
Acordo.
Desligo tudo o que deixei ligado.
Preparo-me para sair e ir trabalhar.
Saio.
Chego à estação.
Entro no comboio e sento-me.
Olho para a janela e vejo:
Vejo uma briga,
vejo uma pessoa a chorar,
vejo alguém a suicidar-se,
vejo um prédio a desmoronar-se,
vejo um tiroteio entre gangs,
vejo brancos a espancarem um preto,
vejo alguém a morrer,
vejo um placar que diz:
"Estamos num bom caminho"
situado à frente de um bairro de lata.
Ouço o comboio a chiar intensamente.
Deixo de ver.
Não revoltar e morrer.
A inocência é a universalidade dos seres vivos, é nela que está a beleza da ignorância de quem vive acreditando.
A minha inocência foi esta:
Francisco Sarmento
Este blogue encontra-se concluído para que outro aconteça agora: http://poemasdesentir.wordpress.com/
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quarta-feira, 15 de setembro de 2010
No Café Da Minha Rua
No café da minha rua
estão lá sempre as mesmas pessoas
sempre nos mesmos lugares,
sempre com os mesmos cigarros,
sempre com os mesmos cafés,
sempre às mesmas horas,
sempre a falar das mesmas outras vidas.
Mas hoje, em dezassete anos, mudaram,
não as mesmas pessoas,
nos mesmos lugares,
com os mesmos cigarros,
com os mesmos cafés,
sempre às mesmas horas,
mas sim,
a falar duma nova outra vida.
Só para observação,
tenho um novo vizinho.
estão lá sempre as mesmas pessoas
sempre nos mesmos lugares,
sempre com os mesmos cigarros,
sempre com os mesmos cafés,
sempre às mesmas horas,
sempre a falar das mesmas outras vidas.
Mas hoje, em dezassete anos, mudaram,
não as mesmas pessoas,
nos mesmos lugares,
com os mesmos cigarros,
com os mesmos cafés,
sempre às mesmas horas,
mas sim,
a falar duma nova outra vida.
Só para observação,
tenho um novo vizinho.
sábado, 6 de março de 2010
Rotina Interior Submersa
Falo falo e nunca me calo,
quando me apercebo já eles se foram embora,
eu pergunto porquê,
eles dizem que já está na hora.
Estão sempre a dizer
que eu estou sempre a falar!
Isso é mentira!
Até parece que nunca me vou calar!
Só de pensar nisto fico logo com ira!
Por isso modemos de assunto.
Ontem comi presunto!
Foi num restaurante, ao jantar.
Só havia um problema,
estava lá um chato sempre a falar!
Percebi logo que não se ía calar,
por isso fui-me embora,
ele perguntou porquê
e eu disse que estava na hora.
quando me apercebo já eles se foram embora,
eu pergunto porquê,
eles dizem que já está na hora.
Estão sempre a dizer
que eu estou sempre a falar!
Isso é mentira!
Até parece que nunca me vou calar!
Só de pensar nisto fico logo com ira!
Por isso modemos de assunto.
Ontem comi presunto!
Foi num restaurante, ao jantar.
Só havia um problema,
estava lá um chato sempre a falar!
Percebi logo que não se ía calar,
por isso fui-me embora,
ele perguntou porquê
e eu disse que estava na hora.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
A (minha) Cidade
Oh campestres terrenos
das estradas escuras
que é cor que me rodeia,
ruas empregnadas do preto
da poluição, lá no ar, como aqui no chão.
Árvores cinzentas, despidas, torturadas,
das suas folhas rasgadas, perdidas,
são coitadas as apodrecidas.
Amor que não é eterno,
feio, mas moderno e materno
da alma que faz palma da tua mão...
Oh feliz a escuridão que à noite aparecia
morreu, em vão, com luz em demasia
desvendando a cortina escura brilhante
e tornando-a como parte da luz do dia...
Oh formigas com sentimento de rebeldia
essa é a infeliz escuridão
no beco sem saída.
das estradas escuras
que é cor que me rodeia,
ruas empregnadas do preto
da poluição, lá no ar, como aqui no chão.
Árvores cinzentas, despidas, torturadas,
das suas folhas rasgadas, perdidas,
são coitadas as apodrecidas.
Amor que não é eterno,
feio, mas moderno e materno
da alma que faz palma da tua mão...
Oh feliz a escuridão que à noite aparecia
morreu, em vão, com luz em demasia
desvendando a cortina escura brilhante
e tornando-a como parte da luz do dia...
Oh formigas com sentimento de rebeldia
essa é a infeliz escuridão
no beco sem saída.
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